COLEÇÕES

Intempéries: como a porcelana registra as marcas que a vida deixa

01 de agosto de 20265 min DE LEITURA
Detalhe de vaso da coleção Intempéries em porcelana pintada à mão, com efeito de oxidação e aplicações

Deixa eu te contar uma coisa sobre a porcelana: ela deveria sair perfeita. Lisa, branca, sem imperfeição nenhuma — é assim que esse material é conhecido há séculos. Mas, na coleção Intempéries, ela não sai assim. A superfície oxida, escurece em alguns pontos, ganha veios de cor que eu não desenho previamente — eles se formam durante o processo. Cada peça sai diferente da anterior, mesmo passando exatamente pelo mesmo procedimento.

E olha, isso não é um problema que eu tento disfarçar. É o motivo pelo qual eu faço essa coleção.

O que a gente não escolhe

Sabe quando alguma coisa te marca e você nem viu chegando? Uma perda, uma mudança, um período ruim que não tava nos planos. Isso não pede licença, não avisa antes e, enquanto está acontecendo, você nem sabe direito no que aquilo vai dar. Só depois, olhando pra trás, é que dá pra entender o que aquilo formou em você.

É basicamente a mesma coisa que acontece com a porcelana aqui. Eu não controlo exatamente onde a cor vai escurecer ou onde o verde vai aparecer sobre o marrom. O material reage do jeito dele, e eu só vejo o resultado no final — nunca antes.

Vaso em porcelana da coleção Intempéries, com aplicações vermelhas e efeito de oxidação em verde e marrom
INTEMPÉRIES — PORCELANA DE ALTA TEMPERATURA, PINTADA À MÃO

Por que isso não incomoda — pelo contrário

Dá vontade de esconder as marcas, né? De preferir sempre a superfície lisa, previsível, sem rastro de nada. Mas, com Intempéries, eu quis o oposto: a marca como parte do valor da peça, não como algo a ser corrigido. Um objeto que não apaga o que passou por ele.

Talvez seja por isso que essa coleção provoca uma reação diferente das outras. Tem gente que toca na textura antes mesmo de perguntar o preço. Não é só estética. Acho que é reconhecimento — a pessoa vê ali algo que ela também já sentiu.

Cada peça é única de verdade, não é só discurso

Como o processo depende de reações que eu não controlo totalmente, nenhuma peça de Intempéries sai igual à outra — mesmo quando duas passam lado a lado pelo mesmo procedimento. Isso não é uma frase de propaganda sobre exclusividade. É só uma consequência de como a coleção é feita.

Cuba em porcelana da coleção Intempéries, esmalte vermelho profundo com veios verdes de oxidação, sobre bancada de pedra
CUBA AUTORAL EM PORCELANA — ARTE FUNCIONAL INTEGRADA À ARQUITETURA

Hoje, essa mesma textura também aparece em luminárias de mesa — a base segue a mesma lógica de oxidação. A cúpula de tecido que aparece nas fotos serve apenas para ajudar a imaginar a peça montada e não faz parte do que eu vendo.

No fim, Intempéries não tenta parecer perfeita. Tenta parecer verdadeira.

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