Respiro: quando interromper também faz parte do processo


Nem toda peça nasce de uma ideia que eu decido desenvolver até virar coleção. Algumas aparecem no meio do caminho, quando percebo que preciso me afastar um pouco daquilo que venho fazendo. Não pra abandonar a pesquisa — só pra conseguir olhar pra ela de novo, com outros olhos.
Foi assim que Respiro nasceu.
Eu vinha mergulhada em superfícies, marcas, texturas, em tudo que acontece com a porcelana quando eu deixo de buscar um resultado totalmente previsível. Era uma investigação que ainda me interessava — e continua interessando —, mas naquele momento eu senti vontade de mudar o ritmo. Queria pensar menos em textura e deixar que a repetição e a cor guiassem a peça.
Uma mudança sem rompimento
Às vezes, quando a gente está muito envolvida com uma ideia, parece que precisa continuar insistindo nela até encontrar todas as respostas. Mas o processo criativo não acontece em linha reta — pelo menos o meu nunca acontece.
Tem hora que é preciso interromper, experimentar outra direção, deixar os olhos descansarem. Isso não significa que a pesquisa anterior terminou. Significa só que alguma coisa nova pediu passagem.
Foi isso que aconteceu com Respiro. Os pequenos elementos repetidos criam um ritmo sobre a porcelana — de perto, cada marca aparece sozinha; de longe, elas começam a formar um movimento maior. A cor atravessa essa organização, quebra a regularidade, impede que a superfície fique previsível. Existe ordem ali, mas não rigidez.
Criar devagar também é uma escolha
A repetição pede tempo. Cada intervenção é feita uma a uma, e o conjunto só aparece quando o trabalho já avançou bastante.
Talvez seja por isso que eu chamei essa peça de Respiro. Não porque foi simples ou rápida de fazer — longe disso — mas porque ela me colocou em outro estado de atenção. Enquanto eu trabalhava nela, não precisava encontrar o próximo passo da minha pesquisa. Podia só ficar naquele gesto, acompanhando o desenho se formando devagar.
A gente vive numa rotina que cobra resposta, decisão, resultado o tempo todo. Fazer alguma coisa sem pressa também é uma escolha. E foi exatamente isso que essa peça me permitiu.

Uma obra pequena, mas presente
Respiro tem escala menor, mas não passa despercebida. Pensei nela pra ocupar lugares mais próximos do olhar — uma cabeceira, um hall, uma parede de passagem, aquele ponto da casa que não precisa de uma obra grande, só de algo que interrompa o automático.
Ela não precisa dominar o ambiente pra transformá-lo. A repetição cria movimento, a cor estabelece presença, e a escala deixa a obra se aproximar de quem vive o espaço — quase um detalhe que a gente vai descobrindo aos poucos.
Isso me interessa muito, inclusive pensando em arquitetura: nem sempre é o objeto maior que dá identidade a um ambiente. Às vezes é uma peça menor, no lugar certo, que muda a forma como a gente enxerga tudo ao redor.
O que surgiu durante a pausa
Respiro não encerrou uma coleção nem inaugurou outra de imediato. Ela ficou nesse intervalo — entre o que eu vinha pesquisando e o que ainda ia começar a aparecer.
Hoje eu percebo que é justamente aí que está a importância dela. Nem toda pausa é ausência. Algumas pausas reorganizam o olhar, devolvem a curiosidade, abrem espaço pra ideias que não apareceriam se eu continuasse só repetindo o caminho que já conhecia.
Respiro nasceu como uma peça de passagem. Mas, no processo, ela acabou me lembrando de uma coisa que vai muito além da porcelana: seguir criando também é saber a hora de mudar o ritmo.
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